segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Manuais escolares, um problema português.

A Biblioteca Escolar do Colégio Bernardette Romeira recomenda a leitura da reportagem “Manuais escolares, um problema português”,  in Jornal Público (1 de novembro de 2015).

Manuais escolares, um problema português

Algumas coisas que não compreendemos sobre os livros escolares no nosso país.

Todos os anos, escrevemos neste jornal sobre a dificuldade que os pais têm, em Portugal, em reutilizar os manuais escolares que herdaram de irmãos, primos ou amigos. Foram aparecendo ideias novas, como o Clube dos Livros Escolares, que em 2008 tinha um serviço online de venda de manuais em segunda mão, mas que rapidamente foi obrigado a fechar por causa de uma providência cautelar da Texto Editores, do grupo Leya. Ou os bancos de trocas, que este ano tiveram muita procura. Há avanços e recuos.

E há algumas coisas que os portugueses não compreendem. Porque é que os manuais são tão caros e em média os livros do 7.º ano custam 252 euros e os do 10.º ano 251 (os outros são pouco menos). Porque é que os governos mudam os programas e as metas curriculares com tanta frequência, ignorando a própria lei que estipula um mínimo de vida para os livros. Porque é que, em tempo de austeridade e de “enorme aumento de impostos”, mal chegou ao poder o Governo introduziu novas metas curriculares. Porque é que as metas vão ao pormenor de impor, um por um, os nomes de dezenas e dezenas de autores e obras obrigatórias e não espelham apenas o nosso património cultural mínimo, num gesto de aberrante paternalismo. Porque é que as metas e os programas, que são documentos públicos feitos para os professores, forçam à mudança dos manuais. Porque é que, quando há mudanças, as editoras refazem os manuais, em vez de fazerem erratas. Porque é que as metas não são simplesmente distribuídas e discutidas pelas escolas e os professores de modo a serem reflectidas nas aulas. Porque é que os professores e as escolas não se colocam activa e eticamente do lado das famílias, em vez de pressionarem as crianças a levarem para a escola o manual “certo”, ou seja, a edição mais recente, chegando ao ponto de marcar faltas de material. Porque é que uma reimpressão de um manual escolar com tiragens de 20 ou 30 mil exemplares custa 20 euros — e em princípio sem sobras, pois as editoras só imprimem depois de saberem quantas escolas adoptaram os seus livros — e um livro inédito com uma tiragem de mil exemplares e grande risco comercial custa 15. Porque é que em nome da liberdade de escolha, há centenas de manuais no mercado. Porque é que mantemos o complexo, pesado e caro sistema de acreditação de entidades avaliadoras e certificadoras de manuais escolares — talvez o único caso em toda a Europa. Porque é que não se reconhece que movimentos como o Reutilizar.org representam a preocupação de um milhão de portugueses e não de apenas algumas pessoas. Porque é que um mesmo grupo editorial, como é o caso da Porto Editora, tem só para uma disciplina e um ano — 5.º ano de Português — cinco manuais diferentes.

Este é um problema de todos. Não é de esquerda, nem de direita. É um problema de Portugal que precisa de um plano de acção urgente.

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