quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Autor do mês de janeiro - Cesário Verde


 
Biografia

José Joaquim Cesário Verde nasceu no dia 25 de fevereiro de 1855 em Lisboa, filho de uma família abastada da burguesia. O pai era comerciante e lavrador, ocupando-se, em simultâneo, da sua loja de ferragens e da lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Foi nesta quinta que Cesário passou grande parte da sua infância, juntamente com os seus três irmãos, Júlia, Joaquim e Jorge, e na quinta se refugiara por diversas vezes ao longo da sua breve vida.

Cesário cresceu num ambiente abastado, senão mesmo rico, avesso a preocupações religiosas e estéticas. Assim, Cesário não deve ter recebido formação nestas áreas, pois não se encontra na sua poesia referências a Deus nem à vida sobrenatural.

Em 1872, aos dezassete anos, começou oficialmente a trabalhar na loja do pai, como correspondente comercial. Com apenas vinte e quatro anos, substituiu o pai na direção da firma, alargando os negócios. Apesar de poeta, desde a década de 70 que Cesário não mais deixara de estar envolvido no universo dos negócios, sobretudo na exportação de legumes e fruta para Inglaterra, França, Alemanha, América do Norte e Brasil.

Em 1873, Cesário Verde começa a publicar os primeiros poemas no "Diário de Notícias", onde é apresentado como um moço quase imberbe, ingénuo, rosto e alma serena, fronte espaçosa, olhar perscrutador, cheio de aspirações elevadas. A receção aos poemas publicados foi péssima. Os leitores, habituados ao sentimentalismo romântico, detestaram aqueles versos sobre a realidade quotidiana da cidade e do campo; mesmo os escritores da geração realista (Ramallho Ortigão, Teófilo Braga e Fialho de Almeida, que acabariam por admirar a obra de Cesário) começaram por lhe fazer críticas demolidoras. O poeta, incomodado com esta incompreensão, escreve no poema "Contrariedades", datado de 1876, Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, / Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, / Um folhetim de versos.

No entanto, continua a escrever e a conviver com alguns amigos ligados às letras, como o poeta Gomes Leal, Macedo Papança (Conde de Monsaraz) e sobretudo Silva Pinto, o seu colega de faculdade e amigo até à morte. A partir de 1881, convive com os artistas e literatos do "Grupo do Leão".

Da sua vida sentimental nada ficou registado, mas há quem lhe aponte uma ligação pouco pacífica com a actriz Tomásia Veloso.

Numa carta que em 1877 escreve ao seu amigo Macedo Papança, Cesário queixa-se de problemas de saúde e este é o primeiro sinal da doença que entrara na casa da família Verde como em muitos lares daquele tempo - a tuberculose. De facto, em abril de 1872, morrera, aos dezanove anos, vítima de tuberculose, a sua "doce irmã" Júlia e, dez anos mais tarde, a mesma doença vitimaria o irmão Joaquim, que contava apenas vinte e cinco anos.

Cesário lutava contra a falta de saúde mas, a partir de 1884, a tuberculose progrediu e o poeta viu-se obrigado a procurar os ares do campo, refugiando-se na sua quinta em Linda-a-Pastora, depois em Caneças e, por fim, no Lumiar. É aí que morre, a 19 de julho de 1886. Tinha trinta e um anos.


Cinismos

Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Lisboa, 1871

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