segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poema da Semana - Pó


  
Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo passa.
O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro
e por vezes espesso.
Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas que sussurram)
e do cuidado doméstico fica sempre,
em baixo, do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra do pó nas páginas.
Marca faz parte dos livros.
Estão marcados.
Nós também.

.
Pedro Mexia, in "Duplo Império"



Biografia

Poeta português, Pedro Mexia nasceu em 1972 na cidade de Lisboa. Após ter concluído os seus estudos secundários, ingressou no curso de Direito da Universidade Católica Portuguesa, que completou com sucesso. Prosseguiu para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de onde arrebatou um mestrado em Estudos Americanos. Pedro Mexia passou depois a colaborar com publicações como o Diário de Notícias, na qualidade de crítico literário, e a escrever artigos para a revista Grande Reportagem, vendida em conjunto com jornais como o Diário de Notícias. Escreve actualmente no Expresso. Assina também uma coluna mensal na revista LER. Debruçou-se entretanto para a poesia, estreando-se em 1998 na revista Colóquio. No ano seguinte publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de poemas intitulada Duplo Império (1999). Seguiram-se Em Memória (2000), Avalanche (2001) e Eliot e Outras Observações (2003). Foi subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa (2008-2010). Tem colaborado regularmente em projectos das Produções Fictícias. É um dos membros do Governo Sombra, na TSF. Publicou seis livros de poemas. Está representado em 366 Poemas que Falam de Amor. Organizou e prefaciou o volume de ensaios de Agustina Bessa-Luís Contemplação Carinhosa da Angústia. Escreveu a letra de uma canção ("Lixo") do álbum "Equilíbrio" (2010), de Balla.

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